18 de dezembro de 2013

Em entrevista exclusiva, Cassio Rippel fala sobre suas metas, treinos e como iniciou no esporte

Leonardo Vagner, Cassio Rippel e Bruno Heck durante a cerimônia de premiação do Campeonato Brasileiro no CNTE (RJ) - Carabina Deitado - Tiro Esportivo - Foto: CBTE/ Ramon Corrêa
Ainda comemorando o título de campeão brasileiro na Carabina Deitado, conquistado pela primeira vez esse ano, e laureado ontem (17/12) como o melhor atleta do Tiro Esportivo em 2013 no Prêmio Brasil Olímpico, Cassio Rippel tem motivos de sobra para comemorar um belíssima temporada. Apesar de somente ter disputado três das quatro etapas da Copa do Mundo, devido à limitação de recursos por parte da CBTE, Cassio terminou em quinto lugar em duas etapas e ficou em 13º em outra. O atleta paranaense termina ainda 2013 como 12º do ranking mundial e como o melhor atirador de Carabina Deitado das Américas. "A meta era classificar-se bem nas Copas do Mundo", disse ele ao Primeiros Tiros. Podemos dizer que ele superou a meta.

Sobre os Jogos de 2016, Rippel sabe que "a caminhada é longa e devemos dar um passo de cada vez, com consciência e trabalho duro" e que 2013 foi apenas o primeiro passo. Um grande passo. Confira abaixo a íntegra da entrevista exclusiva com o atleta, falando sobre como iniciou no esporte do tiro, treinamento, teste de munição, novas regras ISSF e muito mais.



Cássio, primeiramente, parabéns pelos grandes resultados conquistados na Copa do Mundo ISSF 2013. Estar em duas das quatro finais da Carabina Deitado e ficar entre os cinco primeiros estava nas suas expectativas para esse ano? Qual era a sua meta para esta temporada?
Muito obrigado pelos parabéns e pela lembrança Fábio! Encerramos o ano de 2013 com um sentimento de dever cumprido, fomos para três Copas do Mundo (USA, ALE e ESP) e dessas entramos em 2 finais e mais um 13º lugar em Munique. A meta era classificar-se bem nas Copas do Mundo e conseguimos.

Na etapa italiana da Copa do Mundo 2012 você passou pelas eliminatórias da Carabina Deitado com 598 pontos, mas não repetiu o desempenho na qualificação. De lá pra cá, somente em Fort Benning, e posteriormente no Aberto Brasil-Portugal e em Granada, a pontuação conquistada em competições internacionais voltou a ser expressiva. O que mudou nesse período?
Na realidade em 2011-2012 consegui fazer um trabalho de base muito forte e longo, objetivando consertar deficiências e desenvolver pontos que ainda estavam deficitários. Mas o treinamento não mostra seu frutos imediatamente, precisamos ser muito pacientes e perseverantes para esperar que a prova reflita o mesmo resultado dos treinos. E isso começou a acontecer em 2013.

Na atual temporada, você só competiu em uma etapa do Campeonato Brasileiro no primeiro semestre, em maio, único mês livre de treinamentos de equipe nacional, seletivas e competições internacionais. Faz parte da sua estratégia não participar das etapas do Brasileiro, mantendo o foco somente na Copa do Mundo?
Meu foco está em atirar ambos os campeonatos, Brasileiro e provas internacionais. Porém, como o calendário das etapas do Campeonato Brasileiro coincidiu com provas internacionais, eu só tive oportunidade de atirar em 4 provas e pude completar o ranking para participar da última etapa do Campeonato Brasileiro, no RJ. Fechamos em 2º Lugar nessa etapa, com o 1º Lugar merecidíssimo do [Leonardo] Vagner, e consegui fechar o ano como Campeão Brasileiro de Carabina Deitado pela primeira vez, o que me deixou realmente muito feliz.

Como é a sua atual rotina de treinamento? Com que freqüência você tem realizado testes de munição e qual a importância destes testes?
Atualmente tenho apoio integral da Comissão de Desportos do Exército e do Comando do Exército para me dedicar aos treinamentos e competições. Treino 6 dias por semana 6 horas de treino técnico e 2 hora de treino físico. Além de acompanhamento de dois psicólogos e sessões de Ioga. Tenho realizado testes de munição duas vezes por ano e considero esse teste imprescindível para que nos igualemos aos demais atiradores do mundo que dispõem de munições testadas. O conjunto arma-munição precisa ser perfeito, o tiro que sai do cano tem que ser endereçado para o 10.9, caso ele não atinja o centro do alvo terei certeza que o erro foi meu ou foi o vento.

Pouco antes da última etapa da Copa do Mundo, a CBTE anunciou o corte de alguns atletas de Carabina e Pistola. Um corte motivado por "limitação de verba", logo no primeiro ano do ciclo olímpico, não desmotiva ou afeta a equipe de algum modo?
Não sei qual é a verba disponível para a CBTE e nem como é feito a sua gestão. Mas restrição de verba é normal, inclusive não fomos para Copa do Mundo da Coréia [do Sul] no início do ano por esse problema.

Quais as maiores dificuldades que a equipe brasileira de Carabina e Pistola tem encontrado nas etapas da Copa do Mundo? De que maneira as novas regras da ISSF, incluindo as novas regras de vestuário, têm influenciado o seu desempenho e o dos demais atletas da equipe?
Posso falar pela equipe masculina de carabina, que é a que faço parte e acompanho diariamente. Ultimamente, o fato de termos aumentado a presença em competições internacionais fez com que estivéssemos mais confortáveis ao competir fora do Brasil. Atirar em estandes que já conhecemos facilita o desempenho da técnica. Com relação à mudança das regras posso dizer que na nova sistemática da final de Carabina Deitado iniciamos uma nova prova do zero e isso tira a tranquilidade dos atiradores que estariam em vantagem, exigindo muito mais dos atiradores que almejam subir ao pódio. Pois agora necessitam controlar a ansiedade em um período muito curto de tempo, com a narração após cada tiro da final e com a possibilidade de ser eliminado a partir do 8º tiro. O objetivo era gerar algo mais dinâmico e creio que isso foi conseguido, ruim para os que são eliminados e bom para os que permanecem até o final.

Durante a temporada 2013, o regulamento do Campeonato Brasileiro de Tiro ao Prato Olímpico foi alterado e estabeleceu a obrigatoriedade de finais nos moldes das novas regras da ISSF para atletas da Classe A, quando competindo em sede presencial. Você acredita que uma mudança no regulamento das provas olímpicas de Carabina e Pistola no mesmo sentido poderia melhor preparar os atiradores do time olímpico para as competições internacionais?
Sem dúvida, devemos treinar a final olímpica sempre. É uma reivindicação minha há muito tempo.

Hoje você é Major do Exército no 28º Batalhão de Infantaria Leve, em Campinas - SP. A carreira militar veio antes ou depois do Tiro Esportivo? Como você começou no esporte?
Na Seção de Tiro da Academia Militar das Agulhas Negras tem os dizeres: "Tiro: Esporte para todos, dever do Militar". Comigo foi assim também, nunca tinha praticado e iniciei no primeiro ano de Exército, como aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) e nunca mais parei. O Exército Brasileiro me trouxe para o tiro e me apoia integralmente até hoje.

O técnico Carlo Danna, da equipe de Tiro ao Prato Olímpico, declarou em entrevista ao programa Tá na Área (SporTV) que existem absurdos na legislação brasileira que impedem o desenvolvimento do esporte do tiro no Brasil - que talvez não o afetem tanto pelo fato de você ser militar, assim como parte dos atletas da equipe de Carabina e Pistola (como o Felipe Wu, o Bruno Heck, dentre outros). Como essas imposições legais afetam o dia-a-dia dos demais atletas da equipe, que são civis, e que precisam rotineiramente solicitar Guias de Tráfego, Certificado Internacional de Importação, apostilamento de armas no CR, etc?
Não existe diferenciação entre militares e civis no que tange à relação com a DFPC [Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados, órgão de apoio técnico-normativo do Comando Logístico do Exército, que regula a atividade de atirador no Brasil]. Então todos os militares e civis atiradores tem o mesmo tratamento, temos que solicitar Guias de Tráfego, ter CR, solicitar CII e tomar qualquer outra medida administrativa no que tange sua atividade de atirador.

Talvez seja cedo para se falar nos Jogos de 2016, mas não posso deixar de perguntar: quais são as suas expectativas? Como está o seu planejamento para chegar lá no auge do seu desempenho? Você pensa em focar apenas na Carabina Deitado ou vai trabalhar também pela Carabina 3 Posições?
Os Jogos Olímpicos são um sonho para qualquer atleta, principalmente sendo dentro do Brasil. O planejamento e a planificação do treinamento são feitos com vários objetivos intermediários para possibilitar a subida. Mas a caminhada é longa e devemos dar um passo de cada vez, com consciência e trabalho duro e creio que o primeiro passo foi dado em 2013. O foco principal sempre será no Deitado, mas a prova de 3 posições permite complementar o treinamento de uma forma plena e sem dúvida seria muito bom competir em 2016 nas duas provas.

Por fim, já agradecendo o seu tempo e a sua disposição, peço que deixe aqui seu recado para os novos atiradores, aqueles que estão descobrindo o Tiro Esportivo, dando seus primeiros tiros.
O Tiro Esportivo é um dos únicos esportes do mundo que não necessitamos de nenhuma habilidade extraordinária para sermos excepcionais, não necessitamos ser mais rápido, mais forte, mais alto... Necessitamos de muita força de vontade para treinar, treinar e treinar, isso permite que todos sejam bem vindos ao nosso esporte. É importantíssimo que tenhamos a direção correta a seguir e perseverança para concretizar nossos sonhos. Travamos uma luta diária contra nós mesmos por uma melhora pessoal e essa é a grande vitória!

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