11 de junho de 2013

Revelação brasileira do biatlo de inverno enfrenta dificuldades para praticar tiro no Brasil

Gabriela Neres - Biatlo
Vejam como são as coisas no Brasil. Gabriela Neres, 14 anos, de  Brasília, é a primeira representante brasileira em um campeonato mundial júnior de esportes de inverno, como nos informa o GloboEsporte.com.

Na sua modalidade, o Biatlo, ela precisa combinar habilidades de Ski Cross Country com Tiro Esportivo. Mais precisamente, precisa parar quatro vezes durante o percurso de esqui na estação de tiro para atirar com uma carabina .22 LR à distância de 50m nas posições em pé e deitado.


Nós poderíamos imaginar que a maior dificuldade da jovem Gabriela estaria em treinar o Ski Cross Country, visto que por aqui não temos neve. Ledo engano. Leiam o trecho abaixo:

- Foi tudo uma grande novidade. As pessoas falavam: “É melhor você continuar na patinação” (risos). Fui mantendo em segredo, praticando sem avisar nada. Viram que eu tinha habilidade. e perguntavam  como eu iria treinar, mas tem o rollerski, que treino no asfalto. É um bom suporte para não perder a técnica. Desde o início eu focava que era algo sério, mas só fui ter maturidade nos treinos quando comecei no Biatlo.

Para o ski, a solução chegou. Mesmo que ela só possa treinar aos domingos, quando algumas vias de Brasília fecham e a garota não precisa dividir espaço com carros, Gabriela consegue ficar em forma. Por outro lado, para o tiro, o jeito é esperar pelo único mês que passa na Suécia, junto com a equipe da CBDN.

- Eu adoro atirar, mas eu não posso fazer isso no Brasil. Eu não posso ter porte de arma por causa da minha idade, mesmo sendo para tiro esportivo. Ainda não criaram esse suporte. Estou querendo uma vaga no exército ou na Polícia Federal de Brasília para que eu treine lá e não precise carregar a carabina. Por enquanto, eu vou para o exterior nos meses de janeiro para atirar. Fico superansiosa - disse Gabriela, que passa por entrevistas frequentes dos garotos de sua escola, sedentos por detalhes dos países que ela visitou e, principalmente, detalhes das armas.

A que ponto chegamos, não? Uma jovem atleta, cujas potencialidades foram descobertas pela Confederação da modalidade, precisa viajar para a Suécia para poder treinar tiro esportivo porque a legislação brasileira de controle de armas é restritiva, para não dizer estapafúrdia.

Antes dos 18 anos talvez seja até possível requerer o Certificado de Registro, documento emitido pelo Exército Brasileiro para aqueles que pretendem exercer as atividades de atirador, caçador e/ou colecionador de armas de fogo. Mas antes dos 25, porém, é impossível, pela legislação brasileira, se pensar em adquirir uma arma de fogo.

Entretanto, para Gabriela, ou qualquer outro atleta menor de idade, é totalmente possível e exeqüível realizar seu treinamento de tiro em estandes nacionais, devendo-se, para tanto, cumprir o que determina parágrafo segundo do Art. 30 do Decreto 5.123/2004, que regulamenta a Lei 10.826/2003, o famigerado Estatuto do Desarmamento:

Art. 30. As agremiações esportivas e as empresas de instrução de tiro, os colecionadores, atiradores e caçadores serão registrados no Comando do Exército, ao qual caberá estabelecer normas e verificar o cumprimento das condições de segurança dos depósitos das armas de fogo, munições e equipamentos de recarga.

§ 2º  A prática de tiro desportivo por menores de dezoito anos deverá ser autorizada judicialmente e deve restringir-se aos locais autorizados pelo Comando do Exército, utilizando arma da agremiação ou do responsável quando por este acompanhado.

Então, por que treinar tiro somente na Suécia? Não tem sentido. O esporte brasileiro não pode ser refém da desinformação. O caminho não deveria ser o da autorização judicial, mas é o que a nossa vergonhosa legislação permite.

O Distrito Federal possui quatro clubes de tiro filiados à Federação Brasiliense de Tiro Esportivo. O Rio de Janeiro possui o Centro Nacional de Tiro Esportivo, no chamado Complexo Deodoro, onde treinam vários atletas da equipe olímpica do tiro brasileiro. Não tem sentido uma atleta desejar entrar para a Polícia Federal ou para o Exército somente para praticar o seu esporte.

Até quando o Governo Federal, a Câmara e o Senado darão de ombros para o resultado do Referendo de 2005? Até quando nossos atletas do Tiro Esportivo, do Tiro Prático e, agora, do Biatlo precisarão passar apertos para treinar e representar bem o Brasil lá fora?

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